O significado da pintura abstrata (Mauricio Puls)

Partimos do princípio de que a pintura é uma linguagem. Somos capazes de intuir o significado dos quadros, mas encontramos barreiras aparentemente intransponíveis para traduzir os significados pictóricos em palavras.
Os pintores falam uma língua desconhecida, e não dispomos de um dicionário para compreende-la.
Consideramos a pintura como uma linguagem analógica, que ostenta (exibe) imagens de suas referências. Os signos verbais “representam” os objetos de forma arbitrária (por meio de uma convenção social), os signos pictóricos “apresentam” os objetos.

A linguagem analógica exibe seus objetos, enquanto a verbal os substitui por palavras.
A linguagem é composta por três signos: O universal, o acidental(subjetivo;individual) e o convencional(coletivo;contrato social). O signo universal constitui um signo analógico, que apresenta a realidade. Ele é semelhante ao ente denotado. O signo convencional(palavras/idioma) sendo resultado de uma convenção, só existe dentro dos limites de uma comunidade específica. O signo analógico permite que ele seja decodificado em todas as sociedades devido a sua semelhança com o objeto.
O signo universal expressa a práxis do sujeito coletivo.
A linguagem analógica apresenta não o elemento natural em si, mas sua relação com o homem, o seu valor de uso.
Cada signo analógico possui um significado objetivo (universal), que delimita ao seu redor um campo semântico capais de comportar vários sentidos particulares.
Todo quadro é uma expressão semiótica composta por um estrato material (o significante) e um estrato ideal (o significado). A imagem é um objeto social que reflete outro objeto, material ou ideal, que vem a ser a referencia da sentença.
O quadro é sempre mimético: a linguagem reflete o mundo do qual faz parte. Não existe signo que não possua uma referencia, o que implica dizer que não existe quadro que não possua um tema (uma referencia) e um rema (aquilo que se diz da referencia).

O
problema é que não conseguimos identificar o tema numa pintura abstrata.
É fato que mesmo uma pintura abstrata precise conter uma semelhança
qualquer entre o significante e a referência.
O caminho não consiste em reduzir o indeterminado ao determinado, mas descobrir a essência, o universal que rege essa indeterminação.